A espiritualidade

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A espiritualidade tem um história interessante. Diferente de achar que sempre foi, como a conhecemos hoje é um processo histórico. A espiritualidade enquanto jornada de autoconhecimento solitária, cada um fazer seu trabalho interno é uma ideia relativamente nova, tem seus primeiros passos do Iluminismo, ganhando fôlego no renascimento onde a religião passa a ser questionado, há uma crença maior na razão, ciência e método científico.

Depois disso o ser humano ficou descrente das religiões tradicionais e precisou olhar para formas novas de espiritualidade, em uma junção com o orientalismo depois das grande navegações, capitalismo depois da industrialização e o homem que faz a si mesmo, se melhora sozinho no quarto e seus estudos particulares. Em um processo de individualização e olhar menos para a ideia de coletivo. Assim surge essa espiritualidade que conhecemos, individualizada. Cada um tem a sua espiritualidade. Em uma mistura de melhorar a si mesmo, ganho de saúde, ganho de produtividade, enriquecimento pessoal, encontra seu auge hoje no neoliberalismo em que cada um cuida de si como se fosse uma empresa que tem que ser gerida, melhorada, crescida etc. o pensamento liberal da liberdade para pensar fora da igreja tradicional, porém avançado, vendo a nós mesmos como um produto a ser aprimorado. Depois que a natureza tornou-se uma matéria a ser utilizada para proveito do ser humano, o próprio tornou-se sujeito de sua criação, sendo ele mesmo visto apenas como uma matéria que deve entregar utilidade, aperfeiçoamento, performance, produção e entrega.

Toda essa trajetória ao longo de séculos nos ajuda muito a ter alguns insights sobre como pensamos hoje e como vemos a natureza, o sagrado, a si mesmo, o outro, o mundo. A ideia individualizada da espiritualidade nos faz cair em um lugar de menosprezar o coletivo, identificado com a fala de que cada um é senhor total do seu mundo e assim responsável totalmente pode ele, em uma armadilha de achar que o pensamento não seria um produto da subjetividade, esta que é criada por relações com o meio. Como exemplo: um meio dedicado ao mercado de trabalhado competitivo é capaz de gerar uma visão de mundo em que o o outro é uma ameaça, alguém a ser vencido – não alguém que pode lhe ajudar a crescer e sim competir. Ou entender que se tem em mãos todo o poder de escolher sobre a vontade, a ideia do inconsciente vem para duvidar da ideia de que a vontade é totalmente sujeita ao ser humano. A espiritualidade que vive-se hoje tem uma subjetividade criada por um meio que apresenta, o homem no centro das coisas, a produção e o trabalho como centros desse homem, o capitalismo onde está inserida, a ciência como base para entender o mundo, o humanismo, entre outras infinitas influências.

Por fim, não podemos entender que nossa forma de acessar o sagrado sempre foi assim, vem de uma construção pautada por debates, conflitos de ideias, dúvidas, reformas, revoluções, diferentes geografias. Entender todo esse caminho como um processo histórico ajuda a situar o ser humano em um lugar no tempo e evitando ideias absolutas de como agir.