Uma questão de Karma

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Na aula de yoga, uma praticante propôs um tema interessante e algo que eu ouvira antes, sobre a flexibilidade do corpo também refletir na mente. Conseguir mover de forma mais livre o corpo, seria possível uma mente mais aberta? Minha resposta a essa conversa foi de que me parece com um daqueles ditados em que o professor de yoga sente apenas paz, é uma crença que parece bonita e que seria muito bom se funcionasse assim, gostaria eu ter sentido apenas paz em todos esses anos ensinando yoga.

O yoga como é conhecido por nós e em nossos olhos tem algo de holístico, misterioso, vindo de terras orientais, exótico para muitos de nós do ocidente, e assim em sua aura pode carregar uma promessa de respostas para nossos problemas e para o mundo de uma maneira misteriosa e interessante. Associamos ideias bonitas e explicações simples para questões que podem ser complexas, como aquele ditado de que professores de yoga sempre dão bom dia para o porteiro.

Me pergunto se uma pessoa alongada e mais flexível, também apresenta uma abertura em sua mente e se é capaz de acolher ideias as quais não são confortáveis. Para que haja abertura de verdade a nível dos pensamentos a casa precisa estar vazia – uma vez os discípulos de Buda estavam chorando por verem seu amado mestre perto da morte e sentiriam sua falta, Buda responde dizendo que já há tempo não estava mais lá, desde quando foi reconhecido com Buda, um ser iluminado, já estava morto em vida. Ou seja, sua casa já estava vazia a muito tempo, e assim grande como um oceano, e ser aberto ao que a vida lhe pudesse trazer.

Ver a história de Buda como um conto, uma inspiração para as pessoas crescerem e se tornarem mais do que seus problemas e assim não serem afogados pelas dificuldades que aparecem no caminho, um dos mitos da humanidade que nos lembra de algo fundamental, nossa capacidade de crescer e ampliar, abrir a mente para o que chega. Nos lembra de uma habilidade que está no horizonte, como a ideia de Buda, e assim nos acender uma luz. Porém lembro que é apenas um norte, pois na vida real talvez não haja Budas, apenas Sidartas, quero dizer que no mundo real há pessoas que carregam subjetividade e complexidade. As terapias holísticas e yogas em geral tem uma entropia para carregar ideias e conceitos que podem ser vistos como mitos, esses muito úteis para nos dar uma alça, uma mão, a ajudar a levar uma bagagem de outra forma muito difícil de suportar.

Voltemos ao alongamento do corpo e quem sabe alongamento da mente, seria possível dizer que nossos sentimentos e pensamentos podem ter efeitos no corpo, como sensações psicossomáticas, um pensamento estressante pode causar dor de cabeça, enjoo, prisão de ventre por exemplo. Não seria muito distante, dizer que uma preocupação pode tensionar um grupo muscular específico como o pescoço ou a lombar. O que poderíamos dizer sobre um pensamento levado durante toda uma vida, quais seriam as modificações corporais que poderiam resultar? Ao mesmo tempo é algo muito difícil de medir e dizer ao certo que, por exemplo, o medo de ficar só poderia trazer uma dor na lombar, uma área de estabilidade, ou ser perdido na vida por muito tempo pode trazer labirintite. Associações difíceis de afirmar. Seria mais prudente colocar nossas afecções como processos multifatoriais, como também a forma de andar e como relaxar nossos músculos. De forma mais holística, tudo em nós, cada parte nossa indica como anda o todo. Faz sentido ver o corpo e mente tão conectados que não haveria diferença entre eles.

Assim, em que acreditar e o que escolher para seguir como terapia? Cada linha de yoga ou até mesmo na área da psicologia, apresentam propostas de como entender o mundo, de como tratar os sintomas, das possíveis soluções e algumas vezes essas linhas de trabalho são opostas entre si, outras vezes complementares. Na literatura do yoga há conceitos como energia, roda de repetição, karma, dharma, libertação, já na psicologia há inconsciente, consciência, sintomas, comportamentos, papéis sociais, etc.

Qual linguagem será mais efetiva? Em minha experiência, depois de muito recorrer ao yoga e a meditação, hoje volto meus olhares para os sonhos que tenho quando durmo, tento interpretá-los e esse exercício hoje em dia é o que chamo de meditação. Sento, lembro e anoto meu sonho, medito sobre os seus símbolos, relaciono com o que estou passando em minha vida acordada, traço relações e sentido para o que sonho e vivo. Nem sempre usei os sonhos para refletir sobre mim, o mundo e como viver, assim a forma de meditar pode mudar, o que faz sentido hoje é diferente de que fez ontem. Qual caminho terapêutico seguir? Digo que as opções parecem infinitas, mas o que fazer está no leque de poder conversar, escrever, desenhar, ler, exercitar, trabalhar, dançar, dormir, sonhar, e cada uma dessas atividades pode ser terapêutico, se feito nesse intuito. Dessa forma, posso fazer yoga e me alongar, sentir meu músculo, as articulações, flexibilizar o movimento das vértebras, e assim relacionar com questões mentais e como criar abertura para contradições e dúvidas. Aumentar a capacidade de respiro, mais folga para a mente e não se tornar tão fechada.

Stúdio Yantra Yoga Brasília

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